A FUNDAÇÃO DA FACULDADE

A DIREÇÃO BARROS TERRA

O ano era 1921. Antônio Pedro Pimentel, aliado a Sena Campos, Artur Vítor e Andrade Neves, jovens médicos niteroienses, movidos pelo desejo de criar um curso de medicina em Niterói, começam a organizar a fundação da Faculdade Fluminense de Medicina. Oficializada em 25 de junho de 1925 pelo então presidente do Estado do Rio de Janeiro, Abreu Sodré, a Faculdade não recebeu qualquer auxílio governamental, e funcionou como instituição particular até sua anexação à antiga UFERJ, atual UFF. A primeira aula, em 31 de maio de 1926, foi sobre “O Valor dos Estudos Experimentais na Biologia Geral”, ministrada pelo catedrático de Biologia e Parasitologia prof. Otílio Machado. O curso era rigoroso, e algumas disciplinas apresentavam até 35% de reprovação.

 

Na época, um dos problemas que o curso sofreu foi com a escassez de candidatos aptos à matrícula. Na época, Niterói não possuía um curso secundário no qual os alunos pudessem se preparar para a admissão à Faculdade, pois o Liceu Nilo Peçanha só seria fundado mais tarde, em 1931. Como solução, Antônio Pedro fundou o chamado “Curso Anexo”, para preparar os candidatos. Em 1931, a própria Faculdade transformou este curso no chamado Curso Vestibular, um dos primeiros pré-vestibulares a existirem no Brasil, cujo funcionamento se estendeu até 1950, chegando a ter quase 200 alunos por ano.

 

Começadas as aulas, mais questões a resolver foram surgindo. A Faculdade Fluminense não tinha sede própria. A prefeitura de Niterói cedeu, então, o Instituto Anatômico e um auxílio financeiro inicial de 24 contos de réis. Também foi permitida a utilização do espaço do então Hospital São João Batista e de sua maternidade anexa, atual prédio da Física Velha, no campus do Valonguinho. Em 1929 a Faculdade foi estadualizada e seu currículo foi substancialmente alterado. Com a revolução de outubro de 1930, foi deposto o presidente do Estado do Rio, assumindo em seu lugar Plínio Salgado, como interventor no Estado. Mais tarde, em novembro daquele ano, enquanto ia prestar contas ao interventor, Antônio Pedro morre em um acidente de automóvel. Assume o segundo diretor, Manoel Ferreira.

 

A estadualização, então, não quis dizer muita coisa: em 31 de dezembro de 1930, Plínio Salgado concedeu “autonomia financeira” à Faculdade Federal Fluminense, mantendo suas prerrogativas oficiais mas desonerando o estado, e obrigando a Faculdade a cobrar mensalidades de seus alunos. Mas ao que parece, Plínio não queria o mal da Faculdade: em 7 de janeiro de 1931, cede à Faculdade o belo prédio da Rua Visconde de Moraes nº 101, atual prédio do Instituto Biomédico, que até hoje aparece no símbolo da Faculdade de Medicina.

 

Com a formatura da primeira turma em 1931, a Faculdade passou a viver momentos graves de instabilidade financeira. Acontece, então, um fato notável: Manoel Ferreira apela aos professores que abram mão de seus salários, e deem aulas de graça. O que pode parecer uma sandice a qualquer pessoa nos dias de hoje, de fato aconteceu – os professores trabalharam por dois anos sem receber qualquer provimento. Com a ajuda do comércio de Niterói, o diretor conseguiu construir laboratórios e anfiteatros no Anatômico, e ambulatórios no prédio da Rua Visconde.

O professor Manoel Ferreira exonerou-se em julho de 1932, segundo relatos verbais, para participar da Revolução Constitucionalista em São Paulo, tendo sido encarregado de comprar armas no exterior. Ele foi preso, e somente libertado após o fim do conflito. Em seu lugar, assumiu o professor Barros Terra.

 

É importante ressaltar o papel do DABT, na época chamado apenas de Diretório Acadêmico, de realizar pressão sobre o governo do Estado para a cessão do prédio da rua Visconde de Moraes, e da preservação do curso de Medicina em Niterói, recusando a proposta do novo Governo Federal de anexar a Faculdade Fluminense de Medicina à Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, que depois comporia o curso de Medicina da Universidade do Brasil, atual UFRJ.

Antônio de Barros Terra, nascido em 19 de fevereiro de 1878, no Engenho Novo, era filho de um advogado e uma dona de casa. Entrou para a Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro e para a Faculdade de Farmácia do Rio de Janeiro no mesmo ano: 1899. Formou-se em Farmácia em 1901, e em Medicina em 1904. Antes de ingressar na carreira acadêmica,  foi nomeado médico da Estrada de Ferro da Rede Sul Mineira, sediada em Cruzeiro – MG. Lá, exerceu clínica de interior e participou da política local, fundando o jornal local “Correio do Cruzeiro”. Anos depois, devido a doença de seu pai, Barros Terra voltou ao Rio de Janeiro. Enquanto clinicava no Rio de Janeiro, seu amigo Paulo da Silva Araújo, que viajaria a Londres para estudar, pediu que Barros Terra cuidasse de seu laboratório. Na volta, Paulo trouxe novas vacinas para o combate à varíola, e os dois avançaram no campo da medicina preventiva.

 

Barros Terra começou na Faculdade Fluminense de Medicina como professor de Química Orgânica e foi eleito diretor da Faculdade em 1932, sendo reeleito sucessivas vezes até 1945, quando abdicou do cargo por problemas de saúde.

 

Como primeiro grande ato, o professor Barros Terra reuniu cinco ambulatórios de especialidades, o “Gabinete Radiológico” e a Clínica Odontológica da Faculdade Fluminense para fundar a Policlínica da Faculdade de Medicina. Agora fundada, a policlínica carecia de um prédio que a abrigasse. O projeto de construção previa o gasto de 500 mil contos de réis. Com recursos do governo estadual, municipal e da própria faculdade, Barros Terra conseguiu levar a cabo a construção do prédio que atualmente sedia a Faculdade de Odontologia da UFF, até hoje um prédio muito bonito e imponente no campus do Valonguinho. Na inauguração, em 1934, foi convidado a discursar o Biólogo e Médico Sanitarista Carlos Chagas, que falou sobre as então novas diretrizes de “defesa sanitária” do Brasil.

 

Em 1937, com a posse de um novo interventor federal, Alfredo Neves, o peso dos encargos do estado com a Faculdade foram novamente considerados excessivos, e em 1938 é decretado que ela passasse a ser um Instituto Autônomo, com a Faculdade Fluminense de Odontologia voltando a ser Escola Anexa de Odontologia. Era uma sociedade de direito privado, submetida a inspeção federal permanente. Isso durou até 1950, quando Eurico Gaspar Dutra federalizou a instituição.

 

A popularidade de Barros Terra entre alunos e professores, e a colaboração memorável deste professor à Faculdade Fluminense de Medicina fizeram com que, com o seu afastamento da direção da Faculdade em 1945 por motivos de saúde, o Diretório Acadêmico consagrasse seu nome pelas próximas décadas, dando seu nome ao Diretório Acadêmico Barros Terra.

DE INSTITUIÇÃO PRIVADA A ESCOLA FEDERAL

​O lutou-se muito pela federalização da Faculdade Fluminense de Medicina. O curso havia crescido muito, contando com 768 médicos em formação e 1487 médicos diplomados em 1949. O próprio ministro da saúde da época, Clemente Mariani, pronunciou que não haveria condições de que cursos desse porte se mantivessem apenas com subvenções do governo, mensalidades pagas por estudantes e serviços pagos prestados à comunidade. Havia ainda os argumentos de que o governo federal faria gerência econômica melhor das faculdades, e de que se deveria federalizar as faculdades que tivessem importância regional – já naquela época, apenas 35% dos alunos matriculados eram do estado do Rio de Janeiro. Foram diretores, depois de Barros Terra, Tomás Rocha Lagoa (Anatomia), Parreiras Horta (Dermatologia), novamente Rocha Lagoa, Rubens de Siqueira (Farmacologia), Ruben David Azulay (Dermatologia) e Hiss Martins Ferreira (Biofísica).

 

Em 1960, com a incorporação de várias Faculdades e Escolas de ensino superior, entre elas a Faculdade Fluminense de Medicina, foi criada a Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, posteriormente renomeada, em 1965, de Universidade Federal Fluminense. A partir de então, a Faculdade Fluminense de Medicina passa a ser denominada apenas Faculdade de Medicina.

2021 – Faculdade de Medicina da Universidade Federal Fluminense

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